Friday, February 24, 2006

Como não podia deixar de ser...

...a causa acabou de ser modificada. O MAmEECCMFA é agora o mAMA*
Assino por baixo:
9. José Rino, cientista, Lisboa

*maradona Ao Mundial da Alemanha

MAmEECCMFA*

O RinoBlog adere à macrocausa da blogosfera, faz lobby, junta-se ao movimento popular, enfim... assina por baixo o manifesto. Em Junho, queremos o maradona em directo da Alemanha!

*Movimento de Apoio à ida de maradona como Enviado Especial para a Cobertura do Campeonato do Mundo de Futebol na Alemanha

Thursday, February 23, 2006

a EMEL

Estacionei o carro mesmo em frente ao prédio, de vez em quando vou lá espreitá-lo. O ideal seria apanhar um dos fiscais da EMEL, mas se ele tiver a sorte de escapar, faço o mesmo à senhora que me atendeu hoje na rua dos Douradores e que me disse que eu já não era residente outra vez. "É a lei, isto agora é um novo processo." Já não me conhecem, na EMEL. O residente é o carro antigo, o que está numa sucata à beira do IC2, não eu... Eu tenho de provar outra vez que sou o mesmo, que vivo no mesmo sítio e que só o carro mudou. Nunca aparece um fiscal da EMEL quando é preciso. Aguardava que ele tirasse o caderno do bolso daquele uniforme verde ridículo e ia ter com ele. Depois pedia-lhe que se identificasse. Coisa pouca, apenas queria ver o cartão de trabalhador da EMEL, uma declaração do IRS a comprovar que ele de facto ainda trabalha para quem diz, uma cópia do contrato de trabalho e já agora, uma versão actualizada do regulamento geral das zonas de estacionamento de duração limitada, para ver se a minha rua está de facto lá. Estou-me a esquecer de qualquer coisa, ainda assim. Felizmente deram-me uma lista. Cá está. Cartão de eleitor, é isso. Em alternativa ele também podia ir à junta de freguesia buscar um papelinho que depois tem de ser carimbado por dois comerciantes que o conheçam. "Lembra-se de mim? Costumo vir cá de vez em quando comprar o jornal, ando sempre com este uniforme verde ridículo... não está a ver?" Não sei qual dos arrumadores aqui da zona se tem dado ao trabalho de rebentar com os parquímetros, mas tem toda a minha solidariedade. E uma chave de fendas, se por acaso precisar...

Monday, February 06, 2006

- Adjö


Behrouz é o nosso guia. Diz que sabe perfeitamente onde estão os melhores bares em Södermalm, a parte sul de Estocolmo. É isso, aliás, que pergunta à primeira sueca que encontra na passadeira, à saída da pousada. Ela sorri, desvia-se do seu caminho e leva-nos até Götgatan, puxando o nosso "guia" pelo braço cada vez que ele se aproxima mais da estrada. Os carros não fazem barulho, com a neve, e o vinho português é talvez demasiado forte para um iraniano de 24 anos pouco habituado a beber. Behrouz deixou o negócio de móveis da família em Teerão, emigrou para a Suécia, casou com uma rapariga de olhos azuis e cabelo pintado de vermelho. Na carteira guarda uma fotografia da filha de oito meses, ao lado de um papel com uma morada errada. "Muy preciosa", disse-lhe Rodrigo, um espanhol que não tinha quarto na pousada mas que se lembrava do código de entrada da porta, 7511. Rodrigo não nos quis acompanhar, tinha de apanhar um barco daí a uma hora. Trinta e oito horas depois, já em Londres, o homem que não levou roupa para a viagem porque ia estar tudo em saldos acabaria por seguir o conselho que o espanhol lhe deu, e visitar mais uma loja em Picadilly Circus, de onde sairia com umas dezenas de libras a menos. Mas adianto-me. Götgatan começa agora a ficar um bocado mais inclinada, com o gelo torna-se complicado subir. Não circulam carros nesta rua, mas Behrouz não abdica da sua convicção em ser atropelado. A sueca tem de o desviar de um grupo animado que escorrega rua abaixo em cima de páginas arrancadas a uma lista telefónica abandonada. Estamos no caminho certo, portanto. Estão 15 graus negativos na rua. Behrouz tira o casaco, diz que não tem frio. O vinho aquece-o. Já não vê a filha há algum tempo. Por decisão de um tribunal sueco, só pode estar com ela de dois em dois meses, dois dias seguidos, duas horas por dia. Era para a ter encontrado hoje, mas a ex-mulher não apareceu. Guarda na carteira um papel com a morada errada, no outro bolso o telemóvel que há-de despedaçar contra o chão no dia seguinte, quando der pelo erro. Sentado na recepção da pousada, duas horas antes, partilha connosco a sua história, contada em sueco ao homem que viveu um ano em Hudiksvall e num inglês muito limitado a mim. "This!" (com os dedos a agarrar o cabelo penteado para trás) "Dark hair, Iran. Not Europe. You fine. You Europe. Me? Not Europe. So, no baby..." Fomos buscar uma garrafa de vinho à mala. Portugal é o nome que dão às laranjas no Irão. Behrouz lê os nossos nomes e moradas com dificuldade, está habituado a ler ao contrário, da direita para a esquerda. Fala árabe, curdo, turco, persa e sueco. Tem uma pizzaria em Piteå, 700 km a norte de Estocolmo. Deixámo-lo no bar onde a sueca nos levou, a jogar blackjack, e fomos ainda para Gamla Stan. Quando o voltámos a encontrar no dia seguinte, tinha gasto 3000 coroas num telemóvel novo e em presentes para a filha. Ajudou-nos a levar as malas para o metro. Estava "tutto bêim!", repetia contente...

Monday, January 30, 2006



Neva em Hudiksvall. Bastante. Talvez 10 graus negativos lá fora, o que até nem é mau para esta altura do ano. "Está frio, não está?" perguntou-me o barbeiro há bocado, enquanto me cortava o cabelo. Respondi que sim, embora não tenha a certeza absoluta de ter sido este o diálogo. Ainda só falo três palavras em sueco e ele não conhece mais nenhuma língua. O comboio de regresso a Estocolmo parte daqui a duas horas. A internet é grátis aqui na Biblioteca, mas só a posso usar durante dez minutos. Tempo apenas para ler o mail e para um pequeno post. Um miúdo louro espera educadamente que eu me vá embora para poder usar o computador. É melhor ir comer qualquer coisa...

Sunday, January 29, 2006

now the snow has covered everything.

"Então pois lembro! Andava toda a gente muito admirada, os que não eram da neve. Eu não, eu já conhecia o que aquilo era. É que eu sou da terra da neve, sabe, eu nasci em Pinhel e estava habituado a andar descalço na neve e tudo. Mas aqui em Lisboa andava toda a gente na rua, muito admir..." O ruído aumenta, perde-se o sinal e a história do senhor que se lembrava de ter nevado em Lisboa há 52 anos atrás. Nunca foi fácil apanhar rádio na zona de Rio Maior. Acelero um bocado para me aproximar do carro da frente, enquanto procuro uma outra estação. O carro derrapa um bocado, depois equilibra-se, continua agora em frente. Acende-se uma luz no painel de instrumentos, é a estrada que está cheia de gelo. Um flash no espelho distrai-me, acabei de ser fotografado. Não é por excesso de velocidade, de certeza. Circulamos a vinte quilómetros por hora, todos. Uma longa fila que se estende pela antiga "estrada nacional", hoje IC2. A auto-estrada do Norte cortada, a do Atlântico também, aquele é o único caminho para Lisboa, não há fuga possível. Outro flash. No carro atrás de mim tiram-se fotografias. À estrada, à neve, às vinhas cobertas de branco, às mesmas árvores que no Verão ardiam e que agora ficam escondidas, até às casas dispersas à beira da estrada, lado a lado com sucatas e lixeiras várias. Tudo ocultado pela neve. Somos todos turistas num país nórdico estranhamente familiar, hoje. Regressa o sinal da TSF. "Vamos agora falar com este outro senhor... como foi, antigamente, lembra-se?" Perfeitamente, irei eu responder um dia. Foi em Janeiro, demorei quase três horas a chegar a Lisboa. Pelo caminho pensei numa casa de praia que sempre me fascinou desde pequeno, construída ali na marginal da Praia do Pedrogão. Um telhado enorme, com telhas muito escuras, parecia um V virado ao contrário, uma chaminé a deixar adivinhar uma lareira gigantesca. Uma casa arrancada dos Alpes e colocada ali, no meio das outras, para ser troçada e olhada de lado desde que me lembro de lá ir. "Para que serve aquilo ali? Até parece que neva na praia!". Nevou hoje. Devia lá ter ido, era a única fotografia que queria realmente ter tirado. Quase que aposto que a lareira esteve orgulhosamente acesa, o telhado inclinado coberto de neve, finalmente a cumprir o seu fim. A persistência é sempre recompensada, um dia...

Saturday, January 21, 2006

And now - an unsuccessful insurance company call

"- Estou?
- Boa tarde. Sr. José Rino? Daqui fala (...) da sua Companhia de Seguros. Gostava de saber se era possível encontrar-me consigo para esclarecer alguns pormenores do acidente em que esteve envolvido...
- Hoje vai ser complicado, é melhor combinar para a semana...
- São só cinco minutos, posso encontrar-me consigo em qualquer lugar, não há problema.
- Não, isso iria ser complicado. Mas posso combinar consigo na segunda-feira, se quiser.
- Não há problema, não há problema! Diga-me onde está, eu vou ter consigo a qualquer lado!
- Bom, está bem. Agora estou em South Kensington, mas daqui a meia hora devo andar por Picadilly Circus...
- (...)
- Segunda-feira?
- Sim, é melhor segunda-feira..."

Friday, January 20, 2006

And now for something completely different...

Image hosting by Photobucket
"A rescue operation was under way this evening to save a wounded whale in the Thames. The 18ft creature sparked excitement after it was sighted swimming past the Houses of Parliament, send spouts of water 20ft into the air. Hundreds of people lined the river on each side to catch a glimpse. (...) It is the first time this type of whale has been seen in the Thames since records began in 1913. Bagy Tokhtokh, 35, who runs a stall selling souvenirs, said: "It's the first time I've ever seen a whale. I'm from Mongolia and they're not very common there."
[the Evening Standard, Friday night edition - 40p outside Blackfriars underground station]

Monday, January 09, 2006

Histórias de condutor

"George: I got about fifty-feet out and then suddenly the great beast appeared before me. I tell ya he was ten stories high if he was a foot. As if sensing my presence he gave out a big bellow. I said, "Easy big fella!" And then as I watched him struggling I realized something was obstructing his breathing. From where I was standing I could see directly into the eye of the great fish!
Jerry: Mammal.
George: Whatever."
[Seinfeld, season 5 - The Marine Biologist]

"O outro carro capotou? Bem, quando eu tive o acidente, nem imaginas...", contam-me, três semanas depois de ter sido abalroado por um Renault Mégane preto que capotou após o embate, deu três voltas no ar antes de projectar o semáforo que estava vermelho para o Eixo Norte-Sul, e foi ainda aterrar no capot doutro carro que atravessava o cruzamento à minha frente. As histórias que condutores acidentados me têm contado não ficam atrás das histórias de pescadores, parece-me. Com o passar do tempo ganham dramatismo, efeitos especiais. É preciso explicar bem o susto que se sentiu, não foi uma batidela qualquer... Foi exactamente como nos filmes. "O gasóleo na estrada não incendeia, não se preocupe", garantiu-me um dos primeiros bombeiros a chegar ao local, quando lhe apontei o tanque de combustível destruído. Tal falta de visão não lhe irá retirar, no entanto, o papel que lhe reservo na minha história. Foi ele quem saltou do carro dos bombeiros ainda em andamento, já de extintor na mão, e apagou as chamas que avançavam impiedosamente em direcção ao meu veículo. Tinham sido ateadas por um cigarro aceso, atirado para a estrada minutos antes. Grande plano do cigarro aceso, com o semáforo que há-de ficar vermelho ainda a piscar laranja, no início da cena. Tudo isto é pós-produção, claro. Na minha memória ainda só existem as cenas registadas no local... Mas já há algumas recordações com fundo azul, à espera das animações feitas por computador. "E o outro carro? Capotou depois de bater em ti, ou depois de bater no passeio?" Não faço ideia. Fiquei de costas para o resto do acidente, os faróis apontados para o lado contrário. Ouvia as colisões, mas não via nada. Capotou e deu três voltas no ar, por isso. Foi aterrar em cheio no capot do outro carro. É verdade que ele ficou batido foi do lado direito, mas isso era porque vinha já em duas rodas, as duas da esquerda, a tentar desviar-se do Mégane preto. Os relatos de acidentes automóveis nunca são verdadeiros, apenas se baseiam em histórias verdadeiras...