Thursday, July 22, 2004

Sagres

Há quatro anos atrás naufragaram dois barcos de borracha ao largo da costa de Sagres, em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas. A história (que com o tempo foi ganhando contornos surreais) ainda hoje é lembrada pelos pescadores locais como "a coisa mais estranha" que terão presenciado na vida. Mas não terá sido a única. "De há seis anos para cá é sempre a mesma coisa, acontece sempre algo de estranho", assegura uma das vendedoras de perceves da vila. "Uma vez apareceu aí um jipe daqueles antigos... andava tão devagar e fazia tanto barulho que até metia medo à gente. Só os estrangeiros se aproximavam". O filho mais velho do dono da única bomba de gasolina da vila, que prefere manter o anonimato, diz ter conhecido os ocupantes: "Eram três moços, um até vinha a dormir, disseram-me que vinham de longe, tinham demorado mais de oito horas a chegar cá. Ainda ali está a marca do pneu naquele pedaço de terra, pode ir ver." Este ano ainda não terá acontecido nada de anormal, mas tudo poderá mudar dentro de pouco tempo, garante um dos pescadores mais velhos. "O vento está a mudar, os animais começam a portar-se de forma estranha. Não devem faltar mais de duas, três semanas. Eles vão aparecer aí outra vez, isso é certo..."

"Este é o ponto mais ocidental, não só da Europa, mas também de todo o mundo habitado. (...) Artemidorus (que diz ter visitado o sítio) compara-o a um barco; e diz ele que três pequenas ilhas ajudaram a dar-lhe forma, ocupando uma destas ilhas a posição da proa, e as outras duas, onde se pode ancorar com segurança, a posição dos dois ferros de âncora. Quanto a Heracles, diz ele que não há um único templo em todo o Promotorium Sacrum, nem sequer um altar dedicado a ele ou a qualquer outro deus, mas apenas pedras espalhadas por vários sítios em grupos de três ou quatro. (...) E não é permitido, diz ele, oferecer sacrifícios nem permanecer nesse lugar à noite pois dizem os nativos que os deuses o ocupam àquelas horas. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o lugar não a tem. (...) Dizem ainda os nativos, segundo Poseidonius, que nestas regiões ao longo da costa do oceano, o Sol é maior quando se põe, e que quando o faz se ouve crepitar o oceano para o extinguir, porque ele mergulha nas suas profundezas."
[Estrabão (séc. I) - livro III, capítulo 1- traduzido da versão inglesa;
orto-fotografia digital disponibilizada por Sistema Nacional de Informação Geográfica]

Wednesday, July 21, 2004

Foi há 35 anos atrás. Ninguém dormiu na noite de Domingo para Segunda-Feira, ninguém conseguia tirar os olhos da televisão. Ninguém queria acreditar no que via. A imagem não era grande coisa, o som também não. O apresentador da emissão especial na RTP, José Mensurado, fazia o seu melhor para decifrar os telegramas que lhe iam chegando, mas a linguagem científica era difícil de entender. Eram longos os momentos em que ninguém dizia nada, em que se mostravam apenas as imagens. Às vezes nem isso, que as dificuldades técnicas eram muitas. Mas ninguém arredava pé. 20 de Julho de 1969. Eram 3 horas e 56 minutos, madrugada já de dia 21 em Portugal. O Homem pisava pela primeira vez a Lua.
Gostava de ter uma recordação desse momento, por mais pequena que fosse. Gostava de ter estado a olhar para a televisão do meu avô, como toda a gente da vizinhança naquele dia. Mas não me lembro de nada disto. Quando eu nasci já o maior feito do meu século tinha ocorrido...



102:44:29 Armstrong (on-board): I got a good spot (Garbled).
102:44:31 Aldrin: 160 feet, 6 1/2 down.
102:44:33 Aldrin: 5 1/2 down, 9 forward. You're looking good.
102:44:40 Aldrin: 120 feet.
102:44:45 Aldrin: 100 feet, 3 1/2 down, 9 forward. Five percent. Quantity light.
102:44:54 Aldrin: Okay. 75 feet. And it's looking good. Down a half, 6 forward.
102:45:02 Duke: 60 seconds.
102:45:04 Aldrin: Light's on.
102:45:08 Aldrin: 60 feet, down 2 1/2. (Pause) 2 forward. 2 forward. That's good.
102:45:17 Aldrin: 40 feet, down 2 1/2. Picking up some dust.
102:45:21 Aldrin: 30 feet, 2 1/2 down. (Garbled) shadow.
102:45:25 Aldrin: 4 forward. 4 forward. Drifting to the right a little. 20 feet, down a half.
102:45:31 Duke: 30 seconds.
102:45:32 Aldrin: Drifting forward just a little bit; that's good. (Garbled) (Pause)
102:45:40 Aldrin: Contact Light.
102:45:43 Armstrong (on-board): Shutdown
102:45:44 Aldrin: Okay. Engine Stop.
102:45:45 Aldrin: ACA out of Detent.
102:45:46 Armstrong: Out of Detent. Auto.
102:45:47 Aldrin: Mode Control, both Auto. Descent Engine Command Override, Off. Engine Arm, Off. 413 is in.
102:45:57 Duke: We copy you down, Eagle.
102:45:58 Armstrong (on-board): Engine arm is off. (Pause) Houston, Tranquility Base here. The Eagle has landed.
102:46:06 Duke: (Momentarily tongue-tied) Roger, Twan...(correcting himself) Tranquility. We copy you on the ground. You got a bunch of guys about to turn blue. We're breathing again. Thanks a lot.
[from Apollo 11 Lunar Surface Journal, July 20 1969]

Monday, July 12, 2004

"This thing of ours"



"Bobby: You know, Quasimodo predicted all this.
Tony: Who did what?
Bobby: All these problems. The middle east, the end of the world.
Tony: Nostradamus. Quasimodo's the hunchback of Notre Dame.
Bobby: Oh, right, notredamus.
Tony: Nostradamus, and Notre Dame. It's two different things completely.
Bobby: It's interesting though they'd be so similar, isn't it?
Tony: One's a fuckin' cathedral!
Bobby: Obviously, I know, I'm just sayin'. It's interesting the coincidence. What, you gonna tell me you never pondered that? The back thing with notre dame?
Tony: No!"
[The Sopranos, episode 40 (Season 4): "For All Debts Public and Private", 2: 22h30]
ou como a excepção confirma a regra, e se há momentos em que não há seguramente nada mais interessante para fazer do que ficar a ver televisão, este é um deles...

Saturday, July 10, 2004

Thursday, July 08, 2004

ja nej avbryt

(cenas da vida de alguém que recupera computadores de vez em quando)
"- Tenho aqui um desafio para ti...
- Então? Virus?
- Não sei. Mas podes formatar tudo. Preciso é dos documentos que aí estão.
- Ok. Melhor assim. Deixa-o ficar aí. Tens aí o carregador?
- Sim. Toma. Deixo tudo contigo.
- Ja, nej, avbrypt?? B. isto está tudo em sueco!!
- Eu disse que era um desafio..."

Sunday, July 04, 2004

"A bad beginning makes a bad ending" - Euripides, Æolus frag. 32 (425 AC)

Thursday, July 01, 2004

Euforia

Estamos na final!



Ou se calhar a final foi mesmo com a Inglaterra, decidida a penaltis. Trocaram a ordem dos jogos, dá essa sensação. Já só falta um, mas a festa é cada vez mais nossa! A noite de ontem foi de euforia, outra vez. Caiu a Holanda e sem marcar um único golo. Marcámos nós por eles, que isto dá para tudo. E que belo golo o de Jorge Andrade, sem hipótese para Ricardo. Mas o de Maniche... que assombro! Um golo do outro mundo, festejado duas vezes no sítio onde eu via o jogo porque da segunda vez ninguém se apercebeu que ainda durava o intervalo e que aquilo era uma repetição. Grande Ricardo Carvalho, a acabar o jogo sem uma única falta assinalada, depois de ter vulgarizado van Nistelrooy, Makaay e van Hooijdonk. E Figo! Grande Figo, o melhor em campo. Temos equipa, pois claro que temos! Venha a final! Tenho é de arranjar outro cachecol, que o meu ficou perdido ontem, algures entre o Marquês de Pombal e o Bairro...

Tuesday, June 29, 2004



Estava no sítio certo à hora combinada. "De qualquer modo, era o que estava escrito", disse-me com uma convicção inabalável. Não tinha a certeza se era um louco ou apenas alguém a tentar chamar a atenção. Tinha, no entanto, uma história interessante para contar. E isso é algo que não aparece todos os dias... "Sim, é estranho, eu sei. Mas todas as histórias lhe parecerão estranhas se olhar para elas da forma correcta. E esta não é menos verdadeira por isso". Impressionava a serenidade no olhar, a certeza nas palavras. Era como um actor a desempenhar um papel. Respondia a cada pergunta que eu fazia como se já estivesse à espera dela, como se tivesse lido o diálogo no argumento de um filme ou numa peça de teatro. De certa forma, era mais ou menos isso que se passava, disse ele. Desafiei-o. Perguntei-lhe se sabia o que eu ia perguntar a seguir, se também isso estava escrito. "Claro que sim", foi a resposta. "Pois se fui eu que o escrevi..."
E contou-me então a sua história, a incrível história que me tinha feito deslocar até aquele remoto local, só para conhecer autor de tamanha loucura. Não tenho a certeza de a recordar na totalidade. Talvez seja melhor assim.
K. tinha um blog. Começou, como muitos outros, por escrever sobre coisas mundanas, assuntos triviais. Queria escrever um diário que um dia lhe lembrasse de quem ele tinha sido no passado. Não demorou muito tempo, no entanto, a perceber que a memória é frágil e fácil de manipular e que algumas pequenas alterações no texto inicial pudessem talvez mudar as suas recordações futuras. A isto se dedicou com algum sucesso durante poucos meses, mudando pequenos detalhes, às vezes alterando apenas a hora em que tinha sido escrito o texto. Escreveu em certo post rasgados elogios a um filme que nunca vira, misturando esta história inventada com uma ida real ao cinema na companhia de amigos. Não foi para ele uma surpresa quando semanas depois todos o que o acompanharam se recordavam de ter visto o filme errado. Um dia, no entanto, enganou-se na data do post. E escreveu sobre algo que nunca acontecera, uma memória falsa de uma conversa que nunca existira, publicando-a... com a data do dia seguinte. O resto adivinha-se. "À sensação de deja vu seguiu-se uma forte dor de cabeça, à medida que ouvia as palavras que tinha escrito no dia anterior, exactamente as mesmas palavras, serem proferidas pelo meu interlocutor. Um arrepio de frio percorria-me o corpo, estava paralisado com medo..." O medo desapareceria com o tempo, era agora um homem sereno e determinado aquele que tinha à minha frente. Decidido a acabar com tudo aquilo. "Como pode adivinhar, já me aconteceu de tudo um pouco. Escrevi para mim próprio uma absurda quantidade de futuros diferentes, julgo que os vivi todos. Isto tem de terminar." Fez uma pausa longa, estudada. "Contei-lhe tudo isto porque não podia suportar a ideia de cair no esquecimento total. Sei bem que ninguém acreditará na sua história, nem mesmo você. Nem o meu nome recordará. Chamar-me-á K. de certeza, lembrar-lhe-ei Kafka. Suponho que tudo isto é um bocado kafkiano, não?". Olhou para o relógio e sorriu. "É agora." E desapareceu de repente, assim mesmo, sem deixar rasto, como uma personagem de um conto fantástico que ele próprio terá escrito...

Sunday, June 27, 2004

Friday, June 25, 2004

The day of the game

"- This day you will not forget. Ten, twenty years from now you will remember the day of the game and you will remember this swedish guy that was talking to you. This is amazing, this... Here's to Portugal!
- Where are you from?
- Göteborg! Ever been there?
- Yeah.
- Gonna get another beer. See you in the final, man!
- See ya!"



"- Olha ali outro. Espera aí, espera aí... Hey man! Great game! Great game! It could have gone either way... Well, have a nice trip back home! Bye bye!
- Ainda não foi desta que falaste com um hooligan...
- Fair play, pá! Quais hooligans, qual quê... são educados, eles. Olha outro! Hey man! Great game!
- Guarda-me o cachecol, N. Vou lá acima...
- Vais subir?
- Vou."



"- Bairro?
- Pode ser. Nunca vi isto assim, pá... Olha, aqueles são checos...
- Bora lá ter com eles... Tudo isto por causa de um jogo de bola, é impressionante.
- É não é? Por causa de um grande jogo de bola. Olha ali mais suecos...
- Já valeu a pena, é o que te digo. Só por esta festa, já valeu a pena!
- Pela festa e não só! A recessão, N.! A recessão acabou hoje. O Ricardo acabou com os nossos problemas todos.
- Eh pá! Maravilha! Isto agora é que vai ser!
- Já me sinto mais civilizado e tudo...
- Olha outro. Hey man! Great game! Great game!"



Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade, Bairro Alto, Lisboa em festa a noite toda...
(fotos de Nuno Pereira)