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Monday, September 03, 2007

A rentrée

"Ai estava a dormir, desculpe lá estar a tocar a esta hora... Sabe o que é? É que o senhor G. de lá de baixo quer instalar uma antena... Ele paga tudo, não se preocupe, mas eu disse-lhe que era melhor falar com o senhor administrador. Com você, pronto. Então vinha-lhe dizer que ele precisa de falar consigo. É só para saber, porque ele diz que paga tudo, não precisa de se preocupar. Ele tem de fazer uns buracos lá em baixo, por causa dos fios, mas fica tudo por conta dele. Pronto, era só para você saber que ele queria falar consigo. Adeuzinho e desculpe lá tê-lo acordado."

[O vizinho da frente, depois de ter tocado à campaínha cinco vezes e ter batido na porta como se o prédio estivesse a arder. Passavam poucos minutos das oito da manhã]

Wednesday, May 23, 2007

Vantagens de continuar afónico semana e meia depois...

"- Ora ainda bem que o vejo, senhor administrador! Queria mesmo falar consigo! Ah, mas continua sem voz... Coitado. Deixe estar, deixe estar, pronto. Falamos depois, não se esforce. É sobre umas coisas cá do prédio, mas fica para depois."

Wednesday, January 17, 2007

O papel na janela

"Bom dia! Sabe se aconteceu alguma coisa à senhora M.?" Calham-me sempre as perguntas estranhas de manhã. Não só há três "senhoras M." no prédio como (e isto para mim é o mais frustrante) os vizinhos ainda não perceberam que eu não sei nada, mas nada, do que aconteceu a quem quer que seja. "Não sei de nada. Mas qual delas?", pergunto. "A sua vizinha de baixo. Tem um papel a dizer 'aluga-se' na janela!" A senhora M. minha vizinha de baixo é a pessoa mais pacífica do prédio, uma versão feminina de Mahatma Gandhi que também optou pela não-violência e que em relação às festas organizadas cá em casa nos anos de faculdade tinha apenas a dizer que "não... não incomodou nada... ouvia só os móveis a tremer um bocadinho, mas são jovens, não há problema nenhum..." Fiquei preocupado, a senhora M. já é de facto bastante idosa. "Bem, espero que não tenha acontecido nada." Não era bem esse o problema, no entanto: "Pois... mas já viu isto? Quem é que virão agora pôr cá no prédio? Ai, espero que não sejam os chineses da loja ali de baixo!" Os chineses? "Sim, os da loja! Ai credo, que nos sujam o prédio todo! E o dinheiro? Já viu quanto dinheiro é que ela vai fazer com isto? Aquilo é casa para alugar a quanto, sabe?" Nada, eu não sei nada. É uma frustração para mim não terem percebido ainda que eu não sei nada...

Thursday, November 16, 2006

O rigor orçamental

Não sei como isto não me ocorreu há mais tempo. A solução para os constantes problemas do meu prédio, que tanto tempo faziam perder à Administração (eu próprio) apareceu hoje, inspirada numa ideia já com alguns meses do nosso primeiro ministro. Em nome do défice, do rigor orçamental, enfim, de promessas eleitorais que nunca fiz... acabei de congelar todos os pagamentos feitos pelo Condomínio relativos a compromissos feitos a partir do dia de hoje! Significa isto que concordo com todas as obras, arranjos, ideias disparatadas e mudanças em geral... mas que não pago nenhuma delas para manter equilibradas as contas do condomínio até ao final da minha legislatura. O elevador precisa de um sensor de peso? A porta das traseiras está ferrugenta? Devíamos ter sensores de movimento nas escadas? Não podia estar mais de acordo! Mas o défice... as contas... Não pode ser, só para meados do próximo ano. Ainda por cima depois do choque tecnológico que foi a mudança do sistema de intercomunicadores. A senhora que limpa as escadas percebeu logo a ideia: "Ah pois, isto sem dinheiro não se vai a lado nenhum! Então e porque é que não aumenta o que as pessoas pagam por mês?" Expliquei-lhe que não era com um aumento da carga fiscal que a coisa ia ao sítio... que a solução era mesmo cortar na despesa, para não sufocar ainda mais as famílias. E ia continuar a falar não fosse ela cortar-me a palavra: "Ai credo, parece um daqueles ministros! Você é que sabe, pronto... faça lá o que quiser."
Parece-me que agora sim, vou ter sossego...

Thursday, November 09, 2006

A praga

Sair do meu prédio é uma coisa complicada. Entrar é relativamente mais fácil, porque normalmente passo uma primeira vez de carro em frente à entrada e consigo ver se há perigo de emboscada ou não. Mas quando saio... quando saio só posso contar com a sorte. Hoje tive azar. "Olhe, ainda bem que o vejo!" atira logo de rajada enquanto se coloca entre mim e a porta. Não adianta dizer que estou atrasado, que tenho de ir trabalhar, nada funciona. "Preciso de falar consigo sobre um problema lá em minha casa". O problema pode ser qualquer coisa, sendo certo que há perigo de morte se não for resolvido de imediato. Um cheiro estranho, um tapete fora do sítio, uma lâmpada que se fundiu, qualquer coisa. Com as chuvadas recentes pensei logo em infiltrações, inundações, um cataclismo de proporções bíblicas. Enganei-me. Enfim, enganei-me no problema, não nas proporções bíblicas. "Tenho uma praga de insectos lá em casa! Bichos assim pequenos, sem asas, está a ver? É horrível!" Mais uma hecatombe para a lista. Seria letal? "É que eu sou alérgica a esses bichos todos! Ainda morro, eu qualquer dia ainda morro!" Era letal, claro. "Vou chamar a protecção civil, vou chamar a direcção regional de saúde, inspectores da Câmara, tudo! Sabe que a vizinha ao meu lado tem mais de vinte gatos em casa? É daí que vêm os bichos, de certeza!" A ideia de ter a protecção civil e a direcção regional de saúde no prédio agradava-me. Era pelo menos um dia de descanso para mim. Mas ainda assim, estava curioso para saber que insectos seriam. "Não, não são baratas. São pequeninos, assim com asas, mas não voam..." E quantos eram? "Olhe, ainda no outro dia vi um e ia tendo um ataque!" Um? Só tinha visto um? "Nesse dia foi um, mas já tinha visto outro na escadas, apanhei um susto quando ia a sair de casa!" E a vizinha do lado, também tinha visto algum desses bicharocos? "Não sei, ainda não perguntei. Queria falar consigo antes de chamar alguém aqui ao prédio..."

Friday, March 31, 2006

O refém

Anda tudo muito calmo, lá no meu prédio. De início julguei que era bom sinal, que tinha finalmente chegado o tempo de conversações de paz. Até a ETA já renunciou à luta armada, pensei, já era tempo de os meus vizinhos fazerem o mesmo. Enganei-me redondamente. Não se vivem momentos de calma, mas sim de impasse. A situação é tensa e pode explodir a qualquer momento. Tudo por causa de um refém, cuja existência me foi revelada pela ala política da facção A (a ala militar vive mesmo por cima, barricada no único andar que não tem luz de elevador, obviamente para não perturbar a vigilância permanente do patamar). "Está aqui, está aqui, venha ver. Já aqui está há duas semanas!" Lá estava ele. Lavado, bem tratado, todo dobrado em cima de um baú. "De quem é este tapete?", pergunto eu. "De quem acha que é? Caiu de lá de cima há duas semanas, mesmo em cima da minha roupa, acha que o vêm cá buscar?" Dei por mim a engolir em seco. O último tapete-refém capturado à facção B provocou uma espiral de vinganças que acabou no alegado ataque cardíaco de um dos beligerantes. O caso é sério. Perguntei se havia conversações... "Já disse à senhora que faz limpezas aqui à vizinha da frente e que também vai lá acima, para dizer ao outro que tenho aqui o tapete! Agora ele tem de vir cá e tem de pedir desculpa, eu não vou lá acima!" Há negociações, portanto, mas estão num impasse. Está explicado o silêncio que se vive no prédio. Entrego-lhes a carta do seguro, o motivo da minha deslocação três pisos abaixo, e venho-me embora. É sem grande surpresa que reparo no tapete de entrada deles, colocado do lado de dentro do apartamento...

Wednesday, March 01, 2006

Big Neighbour is watching You

O dia começa logo por volta das oito, oito e meia da manhã, com o primeiro assalto à campaínha, obviamente ignorado. Fiz saber um dia à facção A que não valia a pena procurarem-me de manhã porque saía sempre de casa antes das 9h. O resultado não foi bem o esperado. Agora procuram-me à mesma, mas mais cedo. Não pode haver o mínimo sinal de presença em casa. Qualquer distracção, uma luz que se acende, o bater de uma porta... e sou apanhado. Vão tentar mais tarde, por volta da hora de almoço. Se estiver alguém em casa recebo o aviso no lab, por MSN. O assunto é sempre urgente: uma lâmpada que se fundiu ("Eu morro! Eu sem luz qualquer dia caio pelas escadas abaixo e morro!"), uma redoma de vidro que desapareceu ("Deve ter caído! Se me caía em cima eu morria logo ali!"), o elevador que "faz uns barulhos" ("Qualquer dia morremos todos!"), o prédio ao lado que parece estar a apontar um cano na nossa direcção a seis ou sete metros de distância ("O cheiro, os mosquitos! Ainda apanhamos todos febre amarela!"), a porta de entrada que só fecha se as pessoas a empurrarem de facto de volta em vez de a deixarem ficar quieta ("Olhe que as pessoas entram! Ficamos com o prédio cheio de drogados, matam-nos a todos!")... Durante a tarde as visitas repetem-se, de ambas as facções, mesmo que o assunto tenha sido resolvido entretanto ("É que pode acontecer outra vez! Isto está muito perigoso!") Eu que o diga. Perigosíssimo. É preciso chegar a casa bem depois das oito, para jantar tranquilamente. E sair logo a seguir para um cinema. Recebo uns SMS de vez em quando da facção B, a única que conseguiu o número, mas só respondo uma vez por outra. "Esteve outra vez no estrangeiro, foi?" Pois foi...

Wednesday, December 28, 2005

É que é já a seguir...

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(post-it deixado por um dos vizinhos na porta da minha casa, algures entre as onze da manhã e a meia-noite...)

Saturday, November 05, 2005

A guerra química

"The wind was favourable and we discharged a very poisonous gas, a mixture of chlorine and phosgene, against the enemy lines... Not a single shot was fired... The attack as a complete success." - Otto Hahn, reporting from the Eastern Front in mid June 1915

O alarme soou ontem pouco passava das oito da noite. Era a campaínha da minha porta, que tocava sem parar. Do lado de fora, muito vermelhos e ofegantes, um casal de vizinhos com ar assustado esperava-me, a senhora mal conseguia respirar. "Querem-me matar! Ai, que me falta o ar! Eu morro, eu qualquer dia apareço morta!" Traziam com eles um cheiro estranho, pareceu-me amoníaco, ou um diluente qualquer. "Venha ver, venha! Fica aí, mulher, enquanto eu desço com o senhor administrador. Venha, venha..." O cheiro ia ficando mais forte à medida que o elevador descia. Parámos no primeiro andar. "Não respire, não respire que isto é um veneno!" Abro a porta do elevador e sinto logo o efeito. Ardem-me as olhos, o cheiro a amoníaco é intenso, talvez seja algo mais forte ainda. "Se calhar andam a exagerar na limpeza das escadas..." A vizinha do andar de cima aparece entretanto, com um lenço a cobrir-lhe a cara. "Não é limpeza, isto não é da limpeza! É bruxaria! Querem-nos matar! Olhe, veja aqui!" Espalhadas pelo chão, pequenas gotas que parecem ser de água acumulam-se perto das portas, começam a descer as escadas e desaparecem depois subitamente. "Isto é de propósito! Já não é a primeira vez! E eu sei bem quem é!" Sabe, mas não diz. Não é preciso. Só ali estava a facção A do prédio, especialistas em contra-informação e guerrilha de má-língua. A facção B é a única com capacidade de produzir armas químicas, é de uma delas o cabeleireiro do prédio. Digo-lhes que vou tratar do assunto, e todos voltam para casa. A próxima reunião de condomínio vai ter como ponto único a aceitação da Convenção de Hague...

Friday, September 09, 2005

The strangest thing...

"The film opens and closes with a voice stating from a speaker "Dick Laurent is dead". We won't ever know more about it...
It happened to me in real life. One day, in the morning, someone rang on my door and said "Dick Laurent is dead." I didn't see him, I've never found out who did say this message. I don't know any Dick Laurent. A mistake, maybe, but this occurrence obsessed me for a long time..."
[David Lynch's Lost Highway interview for italian movie magazine Ciak, April 1997]

"- Ó shor administrador, chegou ali uma coisa estranha no correio... Só pode ser para si..."
A coisa estranha estava em exposição em cima do frigorífico, encostada a uns tupperwares e caixas de gelado Carte d'Or vazias. Uma pequena folha de papel com a fotografia do Rui Costa com o equipamento do Milan colada no canto inferior direito (tirada da revista Maria), um recorte de um jornal do Lidl agrafado na parte de cima, a apregoar "Mais barato!", e escrito em maiúsculas, mais ou menos a meio e com uma caneta preta, os dizeres "chulo bosta". Do outro lado, uns rabiscos com a mesma caneta preta e umas linhas azuis do que parece ser um EEG, ou o registo de um sismógrafo qualquer...
"- Isto estava na nossa caixa de correio...
- Ah pois... pá, se calhar é de um dos vizinhos... não deve estar contente com o shor administrador... isto ainda deu trabalho... o que é que vais fazer com isso?
- Vai já para o blog, claro... Faço como o David Lynch, que cada vez que lhe acontecia algo de estranho, ele metia isso num filme. Sempre eram mais pessoas depois a tentar perceber o que era aquilo..."

Wednesday, July 20, 2005

A táctica

"Subject (...) is inclined to be rather absent minded and eccentric, and will start out a door, turn around and come back, go out on the street without his coat or hat and frequently looks up and down the street as if he were watching for someone or did not know for sure where he wanted to go."
[Army surveillance report for Los Alamos scientist Leo Szilard, June 1943]

Uma emboscada. Pelas vozes que chegavam até mim enquanto o elevador descia contei duas, talvez do lado esquerdo, ao lado das caixas de correio. Se fosse suficientemente rápido a alcançar a porta do prédio talvez conseguisse escapar. Não contei com uma terceira, que esperava na rua e que entrou no prédio mal eu abri a porta do elevador. Tinham-me cercado. Ainda levei a mão ao bolso, mas estava desarmado: o telemóvel tinha ficado em casa, não podia simular nenhuma chamada urgente. Fui fuzilado de imediato: a fechadura da porta do corredor do lixo, as campaínhas que não funcionam, a vizinha do primeiro andar que rega as plantas de manhã de propósito àquela hora para que a do terceiro apanhe um banho quando sai do prédio, a lâmpada do corredor... Tudo isto em menos de três minutos. Só havia uma maneira de sair dali... tive de usar a táctica. Olho distraído para um lado, depois para o outro, e de repente... "Desculpe lá, estava a falar de quê? Estava aqui a pensar noutras coisas..." A táctica tem sido usada com diferentes graus de sucesso em várias ocasiões sociais ou simples encontros do dia-a-dia. Só funciona se o alvo souber à partida o que faço, ou tiver a vaga ideia de que sou um cientista. No meu prédio isso foi o mais fácil... basta contar a uma das vizinhas, todas as outras ficaram logo a saber. Depois é só deixar o estereótipo funcionar. "Ai desculpe. Deixe estar, deixe estar, depois quando tiver tempo dê uma olhada nisso..." Ficam a olhar umas para as outras, e é neste raro momento de silêncio que eu aproveito para sair, mantendo um ar vagamente alucinado de quem está a ver equações nas pedras da calçada e nas matrículas dos carros. Obviamente quando se está neste estado, não se consegue ouvir o que dizem à nossa volta... "É cientista, coitado. É tanta coisa na cabeça ao mesmo tempo. Olhe que um filho duma prima minha deu em doido!" Ah pois...

Wednesday, June 22, 2005

Os vizinhos IV

Habemus administratorum

"Eu não falo com esta senhora, a não ser aqui na reunião e só sobre assuntos do prédio. Tem aqui as contas, tome lá, tome!" Para o outro lado da mesa voaram meia dúzia de folhas escritas à mão, a contabilidade de quatro anos feita pelo administrador cessante, o líder da facção A, sentado à minha esquerda. Pela facção B, uma oligarquia feminina sentada à minha direita em frente a uma ruidosa ventoinha, respondia a dona A., empunhando uma garrafa de água: "Nas suas contas não confio eu! Mostre lá a factura do arranjo do elevador, mostre lá!" À minha frente umas quantas procurações, umas mais válidas que outras, de todos os que há muito desistiram da vida militar e confiaram o seu destino nas mãos de uma das facções. "O sr. S. não pôde vir, está muito doente, mas ele disse que eu o podia representar, que ele depois assinava uma procuração." Nada feito. "Nem pensar, nem pensar! Você deve estar é doido! Pode falar por ele, mas sem procuração não pode votar! Nem pensar!". Devia ser mais ou menos este o ambiente que se vivia na final do campeonato de xadrez de 1972, entre Anatoly Karpov e Viktor Korchnoy. Houve de tudo, nessa final, desde os óculos espelhados de Korchnoy que encadeavam o adversário até ao parapsicólogo trazido por Karpov para hipnotizar e perturbar o oponente. Não ia achar nada estranho se no final alguém me dissesse que os estalidos da inútil ventoinha tinham sido propositadamente regulados de forma a provocar a súbita dor de cabeça da dona M., pouco tempo depois do início da reunião. Uma dor de cabeça que iria durar pelo menos três horas e meia. Até começar a minha. "Eu também voto aqui no jovem, como é que se chama mesmo?" Rino, José Rino. O novo administrador do condomínio, eleito com oitenta e tal por cento dos votos no sábado passado...

Friday, May 20, 2005

Os vizinhos III

Os mais idosos, que são a maioria, encontro-os de vez em quando ainda dentro do elevador, quando o chamo mal a luz da porta se apaga. Não têm tempo suficiente para sair e ficam presos lá dentro, arrastados contra vontade até ao quinto andar. Quando abro a porta estão sempre com um ar um bocado assustado, como se tivessem sido raptados ou levados para outra dimensão. Hoje aconteceu outra vez. "Em que andar estamos?" perguntou desconfiada a vizinha do segundo andar, a espreitar cá para fora para ver se nada mudou. "No quinto, desculpe lá..." respondo, com vontade de continuar: "...estamos em dois mil e cinco e ainda no mesmo prédio, não se assuste, vamos descer outra vez". Depois reconheceu-me. "Então, está bom? E a sua irmã, que nunca mais a vi?" Sabem quase tudo sobre mim. "A si também não o tenho visto, mas você chega sempre mais tarde a casa, não é? Então já viu o anúncio lá em baixo?" Estava de facto um anúncio lá em baixo. Reunião geral de condóminos, lá para finais de Junho. Calha bem, que devo estar na Alemanha nessa altura...

Monday, March 14, 2005

Os vizinhos II

"Olhe, ainda bem que o encontramos. Então quando é que é toma conta disto?" Apanhado de surpresa à saída do elevador, só faltavam os microfones em riste e os focos de luz das câmaras. Uma conferência de imprensa improvisada, a ser transmitida em diferido ao longo da tarde para todos os andares do prédio. Ou quase todos. "Ele não tem estado cá, vizinha. Andou lá por fora, que eu sei..." Nada escapa ao olhar atento dos media, neste caso da dona M. A virança continua, aqui no prédio. Para os vizinhos não é suficiente a queda do Governo, é preciso que caia também a actual Administração do Condomínio. "Isto tem de mudar. O outro tem de sair! Já lá está há muitos anos!" É inevitável. Andar "lá por fora" coloca-me automaticamente em posição elegível, não há fuga possível. "O outro até queria pôr ali uma câmara à entrada, para vermos na TV quem quer entrar, quando nem sequer o intercomunicador funciona, veja lá. Eu nunca consigo ouvir nada!" O povo não perdoa o populismo, sabe que o tempo é de crise, que não há dinheiro para câmaras, nem mesmo para prevenir os assaltos. "Eu deixo entrar toda a gente no prédio! Enquanto não arranjarem aquilo, deixo entrar toda a gente! Tem de ser você a tomar conta disto." Não confirmei nem desmenti, garanti que tudo seria resolvido em altura oportuna e no local próprio. Tentei, enfim, sair dali. "O meu marido disse-me que seria este mês, mas já vamos no dia 15, veja lá isso..." Sorri, acenei com a cabeça, lá consegui sair para a rua. Desconfiado que ainda vou encontrar um cartaz com a minha foto no placard de entrada do prédio, quando regressar hoje ao final da tarde. Mesmo ao lado da mensagem enigmática escrita à mão numa folha de caderno...

Thursday, January 06, 2005

Os vizinhos

"Bom dia, está bom? Também vai para baixo?" Cumprimento-o também. Digo que sim, claro, enquanto seguro a porta do elevador. Para cima era impossível, que o nosso andar é o último do prédio. "Terceiro andar", digo para mim próprio, enquanto carrego no botão do rés-do-chão. "Começa quando chegarmos ao terceiro andar..." Enganei-me. Ainda não tínhamos chegado bem ao quarto andar quando ele dispara de rajada. "Vou agora depositar os cheques. Depois passo tudo para si. Vai ser você o próximo administrador." Acredito em tudo àquela hora da manhã. "Ah sim? Ok, tudo bem, sou eu o próximo administrador..." Mal acabo de o dizer, vem-me à memória o governador de Bagdad, assassinado pelas milícias de Al Zarqawi, e Yushenko, desfigurado por envenenamento com dioxinas. Chegará inevitavelmente o dia em que o condomínio daquele prédio será administrado por uma força de manutenção de paz, uma empresa privada. Até lá, a luta pelo poder é intensa. E é preciso ter muito cuidado com as alianças que se fazem. "Depois há umas coisas que tenho de lhe contar, mas isso fica só aqui entre nós", diz enquanto se afasta da porta, que estamos a passar pelo terceiro andar. Há quatro anos atrás, um tapete caiu do estendal do último andar para o quintal do prédio, desaparecendo poucas horas depois. Retaliação ou provocação, o certo é que o incidente provocou uma espiral de vinganças, uma autêntica vendetta siciliana que já terá causado, alegadamente, um ataque cardíaco a um dos beligerantes. E isso foi antes do grande cisma do arranjo do elevador, onde também eu fiquei preso e do qual só saí jurando eterno segredo sobre a localização de uma das chaves de emergência. E das obras no prédio, o equivalente a três meses de Vietname. No placard de entrada do prédio sobrevive ainda propaganda de guerra dessa altura, uma mensagem enigmática escrita à mão numa folha de caderno, que nunca me dei ao trabalho de decifrar. "Três anos! Já administro isto há três anos! Sabe lá você do que tem sido a minha vida com estas, com estas..." Rés-do-chão. Abro a porta do elevador e ele cala-se automaticamente, talvez por instinto. Saímos os dois em silêncio, cumprimentando-nos à saída do prédio sem dizer palavra. Ele virou para a direita, eu para a esquerda, e assim seguimos por caminhos diferentes, como se de um encontro de espiões se tratasse. Desconfio que ainda antes do final do dia vou ser contactado por algum representante da outra facção...